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  1. LARANJA MECÂNICA, de Anthony Burgess

    terça-feira, 16 de abril de 2013

    TÍTULO: Laranja Mecânica (Clockworck Orange)
    AUTOR: Anthony Burgess
    ANO: 1962
    EDITORA: Aleph
    EDIÇÃO:


    SINOPSE:
    O livro conta a história de Alex, um jovem estudante que, aos quinze anos de idade, encontra imensurável prazer na prática da ultraviolência. Ao lado de seus druguis (ou companheiros), eles praticam todos os tipos de violência, desde vandalismo e espancamento até estupros e furtos. Entretanto, sabotado por seus próprios companheiros, Alex é capturado pela polícia e levado para uma penitenciaria juvenil, onde é submetido a um tratamento revolucionário que corrige sua conduta, modificando completamente sua forma de agir e pensar.

    IMPRESSÕES SOBRE A OBRA:
    Laranja Mecânica não é apenas um clássico, mas é também uma distopia. É uma obra que consegue, a partir de seus vários elementos criativos, dialogar sobre questões como o livrearbítrio relacionado à vida social e a ação do Estado na vida do homem. Anthony Burgess consegue, ao descrever a violência praticada por seu personagem de forma tão real, abordar de forma crítica sobre a individualidade de cada um.

    A liberdade é a questão principal abordada em toda a obra. Por ser algo inerente ao seres-humanos, a divergência dentro dessa questão está na forma como cada um de nós decide agir, ou seja, as escolhas que nos levam ao bem ou ao mal. Entretanto, o conflito ocorre quando nossas escolhas individuais passam a interferir de forma negativa no coletivo e, por causa disso, somos obrigados a rever nossos conceitos e repensá-los, de modo que a convivência sadia seja possível.

    A narrativa em primeira pessoa é um ponto forte na abordagem da temática, pois nos permite quanto leitores aproximarmo-nos mais de Alex, esse anti-herói, que nos conta sobre os acontecimentos em sua vida de forma original e interessante.

    O autor faz uso de quatro elementos fundamentais na construção de seu humilde narrador. O fato de Alex ser um adolescente não apenas reflete a preocupação de Burgess com a juventude de sua época e sua incapacidade de fazer escolhas mediadas pelo uso da razão, mas também a impulsividade, a criatividade e o desrespeito que a juventude tem pelas leis que regem o convívio social. Na verdade, o fato de Alex e seus companheiros usarem uma linguagem própria - nesse caso, o dialeto nadsat - denota a tentativa de criação de suas próprias regras para a vivência em sociedade.

    Alex também tem uma forte conexão com O Belo, expresso no livro através da música clássica. As composições de Ludwig van Bethoven, tão apreciadas pelo protagonista, representam seu lado mais humano, aparentemente ausente em seus outros companheiros. Entretanto, a agressividade presente em sua personalidade contrapõe com sua dificuldade em, a princípio, realizar escolhas positivas no âmbito da benquerença em relação ao próximo. E é justamente isso que o torna diferente, isto é, um personagem complexo, e é a partir desse aspecto que o leitor consegue entender que as escolhas feitas pelo personagem também poderiam ser feitas por nós, ao vivenciar as mesmas situações da narrativa.

    O livro de Anthony Burgess nos leva a refletir que, apesar de Liberdade ser uma virtude positiva que nos possibilita agir como desejamos, a vida em sociedade e as leis que a regem impõem condições que parecem restringir nosso livre-arbítrio. A liberdade só existe quando se é capaz de fazer escolhas, e essas escolhas estão divididas entre atos bons e maus. O próprio Alex afirma, em determinado ponto da narrativa, que “é melhor ser mau por vontade própria e fazer escolhas ruins, do que ser bom por imposição”. Então quando nosso direito à escolha é retirado, estamos deixando de ser livres, ainda que a liberdade seja exercida condicionalmente.

    Outra ferramenta muito usada por Burgess, na narrativa, são os diversos tipos de violência e a desumanização do homem. A técnica correcional Ludovico, desenvolvida pelo Estado como uma cura para a rebeldia irrefreável dos jovens da época, nada mais é do que uma lavagem cerebral que garante uma uniformidade no sentido comportamental. O paciente é submetido a um tratamento intenso, onde recebe uma dosagem especial de uma droga em particular e, então, é levado a uma câmara cinematográfica onde assiste a vídeos em alta resolução de todos os tipos de violência explícita. Aos poucos, a droga vai provocando certo desconforto e mal estar, que vai se agravando com o decorrer do tempo, de modo que o paciente passe a associar isso ao conteúdo que visualiza na tela. Depois de algumas sessões, o subconsciente passa a fazer essa associação automaticamente, não sendo mais necessário o uso da substância, e o paciente se torna incapaz de praticar ou mesmo pensar, ainda que estimulado, qualquer tipo de ato violento. Esse processo de inserção de uma nova ideologia nada mais é do que uma crítica subliminar, feita pelo autor, a todas as formas de totalitarismo que, por sua vez, não seguem outro rumo senão o intentar a uniformidade do comportamento humano, transformando o homem em um ser que não faz suas próprias escolhas livremente, de forma racional, mas que se comporta a partir de um condicionamento externo.

    A violência é, por si própria, algo que desperta medo nas pessoas. No livro, Alex invade a casa de um escritor e violenta sua esposa, ocasionando sua morte. Anos mais tarde, após ser submetido à técnica Ludovico, Alex é espancado por policiais e, por uma ironia do destino, retorna a casa desse mesmo escritor que, não o reconhecendo, acolhe-o no mais humano dos gestos. Entretanto, a prática do grupo liberalista ao qual o personagem pertence, reconhecendo Alex como o infeliz sobrevivente à técnica correcional, se mostra tão desumana quanto à própria terapia desenvolvida pelo governo, usando o jovem já perturbado como um mero objetivo útil aos fins liberalistas, e não como um indivíduo pensante e sensível que ele, enquanto ser-humano, é. 

    É nesse ponto que a obra-prima de Burgess ganha seu verdadeiro valor, isto é, quando nos permite a reflexão sobre a desumanização do homem e sua transformação em um indivíduo mecânico, e não mais um ser que possui capacidades tanto para exercer o poder e a violência, como também o afeto e o cultivo das boas virtudes, mas acima de tudo, a capacidade de fazer suas próprias escolhas e arcar com elas. A juventude, portanto, é a fase da vida onde esses valores são ainda nebulosos, ou seja, onde existem potencialidades mal direcionadas, sim, mas somente pela ausência da maturidade necessária à reflexão de nossas próprias atitudes e decisões, onde a liberdade entra como ferramenta indispensável às experiências e ao desenvolvimento do homem como ser pensante e ativo.

    Por fim, sempre fazendo uso de palavras e gírias nadsat, Anthony Burgess encerra tão grandiosa obra brindando os leitores com a seguinte reflexão, através das palavras do próprio Alex:

    “A juventude precisa acabar, ah sim. Mas a juventude é apenas quando nos comportamos tipo assim como animais. Não, não é bem tipo assim ser um animal, mas ser um daqueles brinquedos malenks que você videia sendo vendidos nas ruas, como pequenos tcheloveks feitos de lata e com uma mola dentro e uma chave de corda do lado de fora e você dá corda nele e grrr grrr grrr ele vai itiando, tipo assim andando, Ó, meus irmãos. Mas ele itia em linha reta e bate direto em coisas bang bang e não pode evitar o que está fazendo. Ser jovens é como ser uma dessas máquinas malenks.”




    Gostei muito da obra, muito bem escrita e elaborada! Por isso, concedi ao livro CINCO CANECAS, o que o classifica como “Excelente”.